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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A estrela e a cruz


Aquela súplica de medo
De quem se despede e tem desejo
Ouso em ti o que o mundo me negou
Sinto na pele o gesto infame
de quem vem e logo deixa.
Peso neste corpo, que
sedento implora por seu gosto

E no caos metafísico do medo
É pelo encontro fatídico que anseio.
Ouso em ti toda a minh'alma
que em meio a seu gozo se despede
temerosa do suspiro que se ausenta

terça-feira, 19 de junho de 2012

Anotações da Madrugada #1

http://www.flickr.com/photos/hmaziviero/

Quanto mais livre deixo aqueles que amo, mais me certifico desse amor.

Eu sou o outro. E gosto que me deixem livre para sê-lo.

No território intransferível que é esse meu corpo, mora uma alma caduca.

Eu sou toda sentimento.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ora (direis) ouvir nebulosas!

Apenas acessem aqui!


E eu vos direi: "Amai para entendê-las!" 
Pois só quem ama pode ter ouvido 

Capaz de ouvir e de entender estrelas


Pois é, caro Bilac, entre estrelas, poeiras cósmicas, partículas subatômicas, filamentos galácticos, neutrinos e espumas quânticas; ainda estamos nós e ainda está o amor, capaz de ouvir e de entender o intocável, inconcebível infinito.


Imagem de hoje do  Astronomy Picture of the Day. Uma imagem diferente a cada dia. Todas captadas pela Nasa.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Contraponto

O medo se contrapondo ao amor
O Sol se contrapondo à chuva
O calor daqui se contrapondo ao frio de São Paulo
Você se contrapondo a mim

A ausência que dói
A falta que faz
o poema que traduz...

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A Antonio Candido


"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
(Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)

O medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

Carlos Drummond de Andrade
In A Rosa do Povo

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Limite e Continuidade

 


 Uma criança de rua, um sentimento sem nome, um problema sem solução, uma verdade não dita, uma dor sem cura, uma flor na rua, um grito abafado, um parafuso que falta, um amor não correspondido...



Tudo o que se perde, mas não deixa de existir
No final, amar é deixar ir



domingo, 13 de novembro de 2011

Isto Não É Um Cachimbo ou Se até Nietzsche Amou

"Ceci n'est pas une pipe", Magritte



Isto não é amor, é só palavra
Isto não é amor, é só ideia
Isto não é amor, é só poesia
Isto não é amor, é só teoria
O amor não está aqui
O amor é sentimento


sábado, 4 de junho de 2011

super-amor

http://www.flickr.com/photos/hmaziviero/

tudo muda, tudo se inverte, tudo passa e às vezes reverte
te olho de frente e tão de repente 
me vira as costas. já não há mais.

grito e mastigo; xingo e engulo
o que mais me condói, me maltrata e destrói.
é que na sua volta,
tão brusca e certeira,
se oferece inteira 
e eu digo que não.
mas quando resgata 
a velha ternura 
me beija e me cura
de todo o medo 
que teima o meu ser

domingo, 24 de abril de 2011

pra dizer o quanto o amor é brega ou o quanto eu te amo


Meus dias normalmente são mais longos e mais difíceis do que os das outras pessoas
Mas, quer saber? eu não me importo
Porque no fim, depois que a multidão se dissipar, eu tenho a certeza de que será você
o único que vai estar lá,
Olhando pra mim e sorrindo
mesmo que eu chegue muito, muito atrasada e cansada
você vai estar lá
De pé, de braços abertos, prontos pra me acolher pelo resto da noite 
E eu nem vou senti-la passar
Até o novo amanhecer
da certeza de te ter
No fim do dia

.
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Último post antes de sumir daqui por um tempo. 
Nada de novo. Tudo de novo outra vez.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

super-homem

retirada de cineclubegrandeangular

E quando ela chega
de um jeito tão manso
dizendo "seu moço, não foi bem assim"
 a prova de tudo, a prova do mundo
me joga no fundo e me cospe no chão
és tão decidida, tão linda e metida
que quando me invade, sem culpa e sem juras
me pega de jeito e me deixa do avesso.
depois do delito, meu corpo emudece
e mais uma vez, em deleite se esquece
"querida, te dou a razão"

terça-feira, 22 de março de 2011

Something in the way


Me alimentei das palavras por você proferidas. Das horas que passaram incólumes por nossos desejos reprimidos. Seu perfil ardia contra o Sol que deslizava rápido em direção a linha que separava o céu do mar. E tão rápido o Sol se pôs que escureceu o nosso amor. Ainda posso te sentir nos átomos do universo ao meu redor e nas moléculas confusas que constituem o meu ser. Em cada vão, em cada esquina, em cada beco sem saída, eu esperava por ti...E te busquei noite adentro, nas dobras do meu corpo, no suor da minha pele, no cheiro da minha roupa que, mesmo lavando muito, ainda guarda algo de ti. Mas só encontrei um pedaço rasgado de você. A parte mais obscura e sem graça, que você esqueceu rabiscada nas entranhas do livro tombado na estante.

*

Sem pedir licença, mas com aviso antecipado, seu beijo doce - daquele doce enjoativo - desceu pela minha garganta da forma exata. Tão certeiro foi, que no momento planejado anulou em equilíbrio o gosto amargo da minha boca seca. A garoa lá de fora formada por gotas bem miúdas, parecia dançar contra o vento frio que soprava mansamente só para a gente, para completar nosso espetáculo. As gotas que se acumulavam no vidro da cafeteria, tão ingênuas e fascinantes, foram as únicas testemunhas curiosas que ousaram enfeitar nossa tarde derradeira.

*

 “Agora vá e não olhe para trás". Te levo no beijo sofrido e na imagem embaçada do olhar marejado. Porque você se move, me olha, se cala e me encara como nenhum outro. E eu, tão tonta de você, me entrego logo. Aquele gosto enjoativo me guiou até você no escuro. No abismo infinito em que você me prendeu, me sentiu, me despiu  e cuspiu sem gratidão.

*

 Mas agora corra, meu amor. É sua chance derradeira. Você está no caminho exato do meu coração. Falta pouco! Se aproxime mais e lhe estenderei as mãos, que gesticulam impacientes esperando seu contato.
 E foi assim, tão de repente, que você optou por ficar pelo caminho, parado na contramão.
Olhe a hora, agora é tarde. O tempo se esgotou. O Sol já se foi. Acaba de se pôr. Ele partiu rápido, sem dar explicação, e junto partiu sem volta o meu coração.

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Dedico este texto (que não tem nem a  metade da qualidade que eu gostaria) à @pollibud

quarta-feira, 16 de março de 2011

Substantivo inconcreto


Tenho pra dizer milhões de coisas
das palavras nunca ousadas.
Todas cheias de poeira
na estante enferrujada

Esperei minha vida inteira,
pelo amor-mais-que-perfeito
que com seu charme tão verbal
transformasse o meu sujeito
em predicado nominal.
Quando enfim chegou,
perguntei-lhe a que veio
e quis dar-me uma função.
Mexeu com meus sentidos
e completei minha oração.

Acerto o tempo e boto o verbo
sim, concordo com a sentença! o momento é decisivo!
sem medo e sem frescura junto logo meu objeto
ao seu verbo transitivo

Entrego à sorte, engulo em seco
encho o peito e solto a voz

Mas é justamente nessa hora
que a frase é reduzida, 
pra que não a acusem de ser infitiva.
e as palavras ansiosas,
a espera de incentivo,
da porra de um verbo
que só pode ser intransitivo!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A hora da entrega (ou A palavra com R)

Quero misturar a cada instante de amor
As formas vulgares de tua languidez nua
Crua, minha alma censura teus gestos
Abocanham meu gozo, silenciam meus protestos

Mas no fervor da culpa,
eis que seu beijo sepulcra
todo o medo da entrega
e me faz viver, pura e casta novamente

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quando anuncias a hora da partida



Era óbvio. Ele nunca a amaria. Gostava dela um bocado, é verdade. Podia sentir quando ele a beijava. Via seus olhos se revirarem de prazer. A boca cálida quase queimava quando os lábios tocavam o pescoço. Ela permanecia inerte. Era ele quem mandava. Amava-o tanto que não se importava. Mandava no seu corpo, nos seus sentimentos, nos seus pensamentos. Até sua alma pertencia à ele.

Mas é na hora da partida que o sentimento puro aflora e se revela para além das palavras.
É o momento em que o coração perde o compasso, o pulmão implora ofegante, os olhos umedecidos se fecham em derrota, a alma transtornada emudece e se apaga. E o corpo, imóvel, quase desfalece impotente.

Depois da partida, tudo vira silêncio...

Era sempre ele quem anunciava a partida, quem lembrava que era tarde. Era óbvio que seria ele quem a deixaria.

Mas esse era seu papel de homem. Ele era mais forte, mais cruel e egoísta. Ele era o homem e não amava. Ela era a mulher. Apenas uma mulher... Frágil e tosca, refém de si mesma. De forte, só o sentimento.

Quando se viu abandonada, apertou a mão com toda a força. Não era muita, mas se esforçou ao máximo, até sentir as unhas cravarem na pele macia da palma da mão. Parou quando sentiu o sangue escorrer. Queria ter a certeza de que o coração ainda batia...