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terça-feira, 24 de julho de 2012

Córtex e Subcórtex

Foto: Helena Maziviero










Os pensamentos davam voltas, formando círculos concêntricos que iam se expandindo gradualmente até se perderem na imensidão nas emoções infinitas. A cabeça girava tentando encontrar um fulcro que sustentasse os ímpetos da alma. Desprovidos de força muscular, os olhos consentiam inexpressivos ao turbilhão de sentimentos que prenunciavam o desespero iminente. 
Tinha os seios pequenos e empinados, que, num esforço sobre-humano, pareciam sustentar os movimentos pungentes e desesperados do tórax. Soltou um gemido quase inaudível no instante em que uma lágrima mal formada escorreu pela lateral do rosto e veio encontrar repouso no travesseiro puído. 
"curva de distribuição da intensidade luminosa"
http://goo.gl/ZH1Fh
A luz buscava as frestas escondidas nos recantos mais hostis do quarto escuro para então culminar em raios luminosos sem graça. Tudo ofegava. Um caos de extremo mau gosto insistia em inibir qualquer ousadia da razão... Queria encontrar os pedaços de si que estavam espalhados pelo quarto, mas o Sol já ameaçava se pôr. Os pensamentos oscilavam na mesma frequência da luz cada vez mais amarelada que ainda insistia em entrar. "Lá fora vai escurecer. Lá fora e aqui dentro.", sussurrou para si. Riu um riso frouxo, fez um movimento que parecia involuntário com os braços e completou: "Aqui fora e lá dentro". Nesse momento, o coração bateu doído. Teve a certeza que o culpado era o Sol.  "Ele não vê que, a cada dia, se põe em um horizonte diferente?".

domingo, 9 de outubro de 2011

A 5ª Sinfonia ou o Caos Eterno



Ele já havia lhe advertido várias vezes: "Não saia à rua sem mim". Ela sempre acatava, sem hesitar ou questionar o que aquele homem - o seu homem - lhe ordenava. Sim. Eram ordens, porque ele  mesmo sempre acrescentava ao fim de cada frase imperativa: "Isso é uma ordem". E mesmo reclusa, dentro das paredes confortáveis do casarão enorme, os rumores de que ela era submissa demais para aqueles tempos chegavam aos seus ouvidos. Não se importava. Falassem o que bem entendessem. Ela sabia que tudo aquilo, aquele bigode recatado, aquelas botinas pesadas, aquela voz grave e impetuosa, eram artifícios para um bom convívio e que, sim, era pautado no amor porque era proteção.
Mas desde aquela noite já não conseguia dormir. A ideia da fuga, a ousadia da rua, dos olhares curiosos... Tudo lhe perturbava a ponto de tirar-lhe o fôlego. Sempre que a fuga surgia em sua mente quase infértil, um frio agudo subia-lhe pela espinha, eriçando ousadamente cada pelo de seu corpo. "É só uma rua." Não precisava fugir. Desaparecer para nunca mais voltar. Era só....a rua.

Estava ensopada de suor. A camisola branca de linho chegou a adquirir uma tonalidade amarelada. Ainda permanecia na cama; imóvel. Uma sensação de desconforto extremo a impedia de executar qualquer movimento, mínimo que fosse. Já era tarde. Podia perceber pela claridade excessiva que invadia as enormes vidraças do quarto e que a impediam de abrir completamente os olhos. Nem mesmo as grossas cortinas de veludo davam conta de impedir o assédio da luz. "Céus! É hora! Logo ele voltará para o almoço e nem mesmo falei com as criadas! As criadas....por que não me acordaram? Por que não chamaram?".
A casa silenciava como nunca. Precisava romper a densidade estática do ambiente que já chegava a sufocá-la. Levou uma das mãos até a nuca e sentiu os fios de cabelo ensopados pelo suor. Sentou-se de uma só vez. Precisou esforçar-se para se livrar do peso enorme das cobertas lançadas ao pé da cama. Os pés tocaram o chão de madeira impecavelmente polida e que estranhamente estava gelada. Insuportavelmente gelada. Agora, sem as cobertas, podia sentir o frio adentrar cada poro do seu corpo e quase congelar sua pele. Ainda assim havia suado como nunca durante a noite. Como se uma enorme revolução térmica tivesse ocorrido assim, no pequeno espaço das horas que determinam o período da noite.

Estava imersa em devaneios sonolentos quando ouviu a primeira nota. Abriu completamente os olhos e esperou ofegante. Então veio o primeiro acorde. Grave, um arpejo de violoncelo ressoou pelo corredor e adentrou a madeira maciça das portas do quarto. Lá dentro, ela aguardava estática. Num ímpeto, totalmente incrédula, correu até a porta, escancarando suas duas folhas. Mal terminou de abri-las e a música, numa intensidade crescente e quase sinestésica, soou melódica e harmonicamente impecável. Projetou seu corpo para o corredor quase que instintivamente, olhou ao redor, procurou nos quartos vizinhos. Nada. Apenas um som de frequência muito baixa, rompendo as barreiras do casarão e se instalando em cada cômodo insolentemente. A casa estava vazia. Chamou pelas criadas, que não apareceram. Desceu cambaleante a escada que levava até o salão principal e permaneceu estática, bem abaixo do imenso lustre de cristal que decorava o ambiente. Seu coração pareceu deslocar-se da cavidade torácica quando de súbito pode ouvir claramente não apenas um, mas vários cellos. O mesmo timbre, a mesma intensidade e ritmo, executando magistralmente o primeiro dos suítes de Bach! O casarão estremecia a cada nota... "Não é verdade! Só pode ser um sonho!". Soltou um grito desesperado implorando que parassem. Não surtiu efeito. Subiu os degraus para seu quarto tão velozmente que se não fosse o auxílio do corrimão, teria despencado escada abaixo. Trancou a porta com três voltas de chave e se embrulhou nos cobertores ainda úmidos de suor. Finalmente a música chegava ao fim, diminuindo gradualmente, até extinguir qualquer som que não fizesse parte do cotidiano melancólico do enorme casarão. "Céus! Até que enfim...". Suspirou de alívio. Não sentia mais calor, nem frio. Apenas o coração palpitando em um ritmo alucinante. O mesmo sentimento....a mesmo vontade....a ideia da fuga. O fôlego faltou-lhe, o frio subiu rápido pela espinha e os pelos se eriçaram. Era hora. Vestiu o primeiro casaco que avistou e com três voltas na chave destrancou a porta. Desceu a escadaria. Dessa vez com altivez e segurança, sem hesitar nem um passo. Com as mãos descobertas sentiu o metal gelado da maçaneta da porta de entrada enfeitada com dois vitrais floridos.

Atravessou a porta, desceu os degraus até o jardim, passou correndo por entre as árvores, abriu o portão, que rangeu por conta dos anos e dos íons de ferro. Deixou tudo para trás: Bach, jardim, árvores, portão e íons de ferro.Não teve tempo sequer de calçar-se, pisando nos pedregulhos do jardim. E finalmente alcançou a rua. Todos pararam observando a estranha figura, mas não se importou e continuou correndo.


Agora podia ouvir claramente a melodia profunda e poética do piano. Era a Valsa Minuto de Chopin! Seu fôlego se recompunha a cada contraponto frenético da batida cromática de seu coração. 






segunda-feira, 27 de junho de 2011

O pecado...

Foto: Marlena Szasz
          
O pecado mora lá dentro

Já passava da meia-noite de sábado, mas o local ainda estava deserto. Era um bar, apesar de não haver nenhum indicativo da real finalidade daquele estabelecimento. Enormes enfeites em forma de balões juninos chamavam a atenção para aquele lugar que se escondia por trás de dois muros altos. As casas residenciais vizinhas tinham um aspecto sonolento e pareciam não se importar com a música alta que se ouvia de longe. O Vero’s Bar, no bairro da Candelária, é conhecido apenas por aqueles que o frequentam. Ele não está nos guias turísticos ou culturais da cidade. Nem mesmo pesquisas na internet são capazes de detectar o lugar. Para conseguir chegar, só mesmo através de indicações. 


Uma porta estreita, a única entrada do estabelecimento, era guardada por um homem agasalhado que vistoriava a entrada e saída dos clientes. “Pra homem é dez. Mulher entra de graça.”, informa o bilheteiro segurando um copo de pinga.  Do outro lado da rua, uma barraca de lanches atrai uma porção de homens que conversam rodeados pelas latas de cervejas vazias.

A garoa fria que começara a cair no começo da noite ainda não dava sinais de trégua. Abrigada debaixo de um guarda-chuva preto, uma mulher trajando shorts minúsculos e muito apertados dobra a esquina. Equilibrando-se sobre saltos enormes, ela cumprimenta o bilheteiro e entra rápido no local.

Lá dentro a decoração é formada por bandeirinhas e balões juninos espalhados por todo o bar. Tecidos floridos recobrem as paredes, que por vezes revelam o cimento chapiscado a espera da pintura.  Os poucos clientes escondem-se debaixo da cobertura em busca de mesas secas. Sentadas sobre as mesas, várias mulheres conversam exibindo suas coxas grossas e bundas enormes.  Quando a clientela começa a chegar elas percorrem o bar dançando sensualmente para qualquer homem que lhes dirija um olhar mais interessado. 

Os dois únicos garçons do lugar vestem camisas brancas e perambulam pelo bar chamando a atenção dos clientes mais atiçados. As mulheres se debruçam nas mesas ocupadas e pedem que os homens lhe paguem cerveja. R$ 4,50 a latinha de Skol. Um absurdo! Mas vale tudo para aqueles que estão decididos a “ganhar a noite”. As garotas fazem charme, dançam, abraçam e até beijam aqueles dispostos a abrir a carteira e despender os sete reais da caipirinha.

Um dos clientes pergunta se não haverá pole dance. “Não. Hoje não. Sem condições”, informa o garçom apontando para a barra de metal afixada em um palco improvisado ensopado pela chuva.  A noite não prometia muito. Os homens bebiam solitários, esnobando o que as mulheres tinham a oferecer. A clientela parecia mais entretida com a luta de boxe que passava na pequena televisão afixada no fundo do bar.

Foto: Miss Fluff

Quando quatro homens chegam e ocupam uma das mesas, vários pares de coxas muito grossas se aglomeram em torno do grupo. A veterana da casa chega acompanhada de mais três mulheres, abre espaço e senta com os recém-chegados. Ela é corpulenta e cheia de tatuagens. Começa a puxar conversa e pede que paguem as cervejas. “Traz quatro”, grita para o garçom. 

Um dos homens do grupo, vestindo a camisa do Inter de Milão, se interessa pela mais velha. Paga tudo o que ela pede e a beija várias vezes. Conversam por cerca de uma hora, até que ela desiste.  Há um limite de tempo. Se o homem não levar logo pro quarto nos fundos do bar, é melhor cair fora e passar pra outro.  A veterana se levanta cambaleante e se debruça sobre a mesa ao lado, onde um casal de amigos conversa. “Me dá licença, tá, meu bem? Vocês estão muito quietinhos. Vamos conversar. Me paga uma cerveja?”, pergunta quase intimando o homem. Ele responde rápido que sim.  Já sentada, ela traga o cigarro que leva entre os dedos e dirige-se sorridente à amiga do rapaz.  “Você não se importa, né, meu bem? Porque eu não quero arrumar um barraco aqui hoje”. A moça consente e como recompensa recebe um "xero" de presente. As duas riem.

No Vero’s você tem que conquistar. Precisa ter lábia, conversar ao pé do ouvido, oferecer o cigarro, pagar as bebidas – as mais caras, de preferência - e chamar para dançar forró agarradinho. Se o homem deixar sentar no colo é porque a noite está ganha. Começam as caricias mais atrevidas, os beijos mais ousados e, quando se percebe, os dois já caminham em direção ao quarto.

Lá pelas três da manhã as mulheres que sobraram perdem toda a timidez. Elas tiram os casacos e exibem seus sutiãs enfeitados com laços e lantejoulas brilhantes. Não fazem mais questão de conversa e não se incomodam quando algum homem apalpa seus corpos quase nus que dançam incansavelmente ao som do forró.

Mas nem todos vão atrás das mulheres. Muitos querem só encher a cara e curtir o ambiente. Cliente mulher quase não aparece. “Mulher desacompanhada ou é puta ou é sapatão”, é o que se ouve entre os frequentadores do Vero’s. Uma das raras clientes admite que sempre procura ir em grupo para “não ser confundida com as outras mulheres da casa”.  Ou, pelo menos, é preciso estar acompanhada de um amigo “com cara de mau”.

Dependendo do movimento, o expediente termina lá pelas cinco da manhã. É quando as últimas mulheres já vestiram seus casacos e se cansaram da dança. Algumas ainda fumam seus cigarros e pedem para que os poucos clientes restantes lhe paguem a saideira. Não há mais expectativas de ganhar a noite, que chegou ao fim. As casas vizinhas ao bar estão acordando, então é hora de dormir.                                                                                                                                                                                                                                                                                      

terça-feira, 22 de março de 2011

Something in the way


Me alimentei das palavras por você proferidas. Das horas que passaram incólumes por nossos desejos reprimidos. Seu perfil ardia contra o Sol que deslizava rápido em direção a linha que separava o céu do mar. E tão rápido o Sol se pôs que escureceu o nosso amor. Ainda posso te sentir nos átomos do universo ao meu redor e nas moléculas confusas que constituem o meu ser. Em cada vão, em cada esquina, em cada beco sem saída, eu esperava por ti...E te busquei noite adentro, nas dobras do meu corpo, no suor da minha pele, no cheiro da minha roupa que, mesmo lavando muito, ainda guarda algo de ti. Mas só encontrei um pedaço rasgado de você. A parte mais obscura e sem graça, que você esqueceu rabiscada nas entranhas do livro tombado na estante.

*

Sem pedir licença, mas com aviso antecipado, seu beijo doce - daquele doce enjoativo - desceu pela minha garganta da forma exata. Tão certeiro foi, que no momento planejado anulou em equilíbrio o gosto amargo da minha boca seca. A garoa lá de fora formada por gotas bem miúdas, parecia dançar contra o vento frio que soprava mansamente só para a gente, para completar nosso espetáculo. As gotas que se acumulavam no vidro da cafeteria, tão ingênuas e fascinantes, foram as únicas testemunhas curiosas que ousaram enfeitar nossa tarde derradeira.

*

 “Agora vá e não olhe para trás". Te levo no beijo sofrido e na imagem embaçada do olhar marejado. Porque você se move, me olha, se cala e me encara como nenhum outro. E eu, tão tonta de você, me entrego logo. Aquele gosto enjoativo me guiou até você no escuro. No abismo infinito em que você me prendeu, me sentiu, me despiu  e cuspiu sem gratidão.

*

 Mas agora corra, meu amor. É sua chance derradeira. Você está no caminho exato do meu coração. Falta pouco! Se aproxime mais e lhe estenderei as mãos, que gesticulam impacientes esperando seu contato.
 E foi assim, tão de repente, que você optou por ficar pelo caminho, parado na contramão.
Olhe a hora, agora é tarde. O tempo se esgotou. O Sol já se foi. Acaba de se pôr. Ele partiu rápido, sem dar explicação, e junto partiu sem volta o meu coração.

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Dedico este texto (que não tem nem a  metade da qualidade que eu gostaria) à @pollibud

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O chapéu com fita


Hoje fiz uma limpeza nos meus arquivos.

E encontrei um texto que comecei a escrever quando tinha 12 anos. Era pra ser um monólogo e lembro de tê-lo abandonado por achar que ficou muito ruim.

Acho engraçado pensar que hoje me sinto incapaz de escrever algo parecido e vou postá-lo para provar que quanto mais a gente cresce, menos exploramos nossas capacidades. Como se a criatividade, livre de pretensões, desse lugar a maturidade, que se envaidece em dizer que tem a experiência de um mundo caduco.

Está na íntegra...com todos os errinhos de português inclusive. Espero terminá-lo um dia...


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UM PRAZER MALICIOSO


Um prazer malicioso é o que eles sentem...
Um prazer malicioso que me faz sentir vergonha de olha-los, de encarar, de falar. Sequer cruzar com eles na rua...
Eu deveria andar totalmente coberta ou totalmente nua, para que nada fosse suspeitado, nada fosse ousado ou imaginado.
Mas é essa sem-vergonhice que me destrói, essa sensualidade desvairada, promiscuidade barata.
Meu tempo não é esse. Meu mundo não é esse.
Tenho asco quando percebo que estou sendo olhada. Não. Olhada, não. Reparada. Reparam em mim. Eu sei que reparam. Em todos os meus momentos, digamos, “públicos”.
Outro dia, subindo apressada da loja de tecidos para minha casa, encontrei uma amiga, dessas meio atiradas que todos conhecem, que não tem vergonha, ou pudor de estar sempre em evidência. E que vez ou outra enlouquecem... Cumprimentei-a rapidamente, mais com um gesto de cabeça do que com palavras definitivas e bem definidas. Mas fui obrigada a parar quando uma outra moça, que estava em sua companhia e que eu nunca havia sequer cumprimentado, fez-me um aceno bem expansivo, exclamando em seguida: “ Você é Madalena, não?”. “Sim. Sou. Por quê?”. “Sei por alto...”
E não só sabia por alto, mas ditou-me com perfeição detalhes não exatamente confidenciais, mas que diziam respeito a informações um tanto particulares, como o numero exato de minha casa avarandada, já tradição de família. Da minha família. Horários em que costumo sair para as compras. E até elogiou, com certa prudência, às vezes em que eu usava chapéus com laço.
Perdoem-me pelo que lhes vou confessar. Gostaria que nada fosse dito, mas estou dizendo. Não sei se para mim ou para o mundo todo. Mas são palavras que eu simplesmente não sei até onde chegarão...
Gostei do que ouvi. Gostei de saber ou, pelo menos, ter a impressão de que existo não só por minha própria dependência, mas que existo para um mundo. Tudo bem, tudo bem. Um mundo que nem sempre percebo. Mas que, de alguma forma, me percebe. E que gosta quando uso chapéu com laço! Gosto muito de chapéus com laço.
Isso reconforta. É uma pena que seja reconfortante apenas até onde não é invasivo ou demasiadamente comprometedor. Mas assim, a longa distância, visto de longe como um lindo chapéu de laço numa vitrine, é bem bonito. É fascinante. Mas, antes de tudo, para que fique claro. Reconfortante.

Não acho certo. Discordo plenamente das ocasiões demasiadamente públicas. São infernais e grotescas. O bonde...odeio o bonde.Tal quantidade de gente e ternos e vestidos que sufocam minha coerência. Entramos como se não estivéssemos indo para lugar algum, sentamo-nos como se não tivéssemos outra opção e finalmente aguardamos como se não pudéssemos fazer mais nada, além de esperar. Esperar...
Então tomamos aquela doce e cretina fisionomia da total ausência de expressões. Alguma coisa como, a cara que teria se as emoções não existissem.
E assim me comportaria até o final do trajeto se o homem de bengala e terno surrado não olhasse.
Ele olhava. Tenho a certeza. Ah! Que nojo! Não posso acreditar. Ele olhava para meus seios. Tinha os olhos calmos. Não eram vidrados. Olhavam de relance. Depois fingiam analisar a paisagem e, então, num simples relance, alçado pelo movimento rápido da cabeça, fitavam os meus seios! Os meus! Meus seios!
O mundo tem impressões. São muitas. A gente adquire uma e a toma por real. Ou, pelo menos, como nossa. E então, quando surge alguém com outra impressão, temos medo de que ela seja maior do que a outra e que nos faça refletir sobre quais são as verdadeiras ou as mais coerentes. Porque eu sei que nenhuma delas é verdadeira ou coerente. E que só existe um mundo. O mais direto e exato possível. Seria tão simples. Meu Deus! Tão simples. Se eu pudesse perceber as coisas tal como são. O mundo, cruamente. E então não existiria o feio ou o belo, a razão e a emoção, a verdade e a mentira; e todas essas contrariedades inventadas pelas impressões do homem. E um chapéu com laço seria apenas um chapéu com laço. Igual a qualquer um. E aquela moça não me repararia e não acharia que eu fico bem com um maldito chapéu com laço!

Se o mundo tivesse um cheiro, seria aquele artificial, de Tutti-fruti. Não tem? Cheiro de tutti-fruti?
E as lâmpadas sempre iriam estar acesas. Mas bem fracas. Os recintos sempre requerem um pouco mais de luminosidade.
Mas desde cedo aprende-se a aceitar as pessoas tal como são, para que elas também possam nos aceitar e vivermos em harmonia.
E gosto muito das pessoas. Não a ponto de compartilhar de suas impressões, logicamente. Mas até aonde é reconfortante. Até onde sei que reparam que fico bem de chapéu com laço. Só até aí! Mais do que isso...torna-se perigoso.
Sempre achei que cada um vive em um mundo a parte. E os que enlouquecem, é porque não souberam ou não se satisfizeram em viver no seu próprio mundo. Mas o homem não nasceu para isso.