segunda-feira, 11 de abril de 2011

super-homem

retirada de cineclubegrandeangular

E quando ela chega
de um jeito tão manso
dizendo "seu moço, não foi bem assim"
 a prova de tudo, a prova do mundo
me joga no fundo e me cospe no chão
és tão decidida, tão linda e metida
que quando me invade, sem culpa e sem juras
me pega de jeito e me deixa do avesso.
depois do delito, meu corpo emudece
e mais uma vez, em deleite se esquece
"querida, te dou a razão"

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Nada a fazer.

CANDIDO PORTINARI, Criança Morta (Criatura muerta), 1944

Às vezes penso que Deus deve mesmo ser uma inteligência muito superior para encontrar sentido em alguns tipos de crueldade e injustiça que, para mim, por mais que eu pense, não servem para nada.

A única coisa que espero é que realmente haja um motivo. E que ele seja tão grandioso e sublime que a inteligência humana não seja capaz de perceber.
Para que eu não fique sem acreditar, me resigno ao cômodo e egoísta "Coitado.Espero nunca ter que passar por isso".

No fim, assim é que se vive. No esforço da fé, na vontade da revolta, na ternura da lágrima e no egoísmo infalível nosso de cada dia.

domingo, 3 de abril de 2011

Sério, sereno e inteligente

Por esses dias entrei numa livraria dessas de shopping, que insistem em misturar no ar o irresistível cheiro de livro novo com café.
Como qualquer livraria, de qualquer shopping, os livros mais vendidos e/ou recomendados ficam em lugar de destaque, a mostra em vitrines e balcões de exposição.

Mal entrei e logo minha atenção foi capturada pelo famoso Diário de Anne Frank. Logo esse livro, que há tanto tempo eu não notava mais nas prateleiras de livrarias, chegando quase a me esquecer da sua preciosa existência. Não que seja um livro ruim ou fútil. Muito pelo contrário, é uma obra de valor histórico e literário inestimáveis (apesar de a Siciliano cobrar preços um tanto abusivos, mas, enfim...).

O fato é que o livro me remeteu a um tempo em que eu, justamente por sua causa, adquiri um estranho e prazeroso vício. O vício de observar cada rosto masculino que cruzasse meu caminho. Pois é, todos têm algum tipo de vício, desde os mais comuns e toleráveis como reparar em placas de carros, até os mais inusitados e as vezes irritantes, como sempre precisar deixar o volume da televisão em um número par.

Em seu diário, Anne fala de Peter, um garoto de sua escola que ela chamava de "meu verdadeiro amor".

"Eu me esqueci de que ainda não lhes contei a história do meu verdadeiro amor."
[...]
"Peter era o menino ideal: alto, magro, bonito, com um rosto sério, sereno e inteligente"

[...]
"Ele tinha cabelos escuros, olhos castanhos lindos, bochechas rosadas e um nariz encantadoramente pontiagudo. Eu era louca pelo sorriso dele, que lhe dava um ar infantil e maroto."


O que é mais incrível nessa passagem e o que me faria fixá-la em minha mente a ponto de decorar cada palavra, ponto e vírgula escritos por Anne seria sua incrível perspicácia e sensibilidade ao descrever o rosto de Peter. Percebam o quanto é tocante! Um rosto sério, sereno e inteligente.

Pois bem, em fevereiro de 2008 a imprensa divulgou uma foto de Peter, doada por um ex-colega de escola de Anne.

Sério, sereno e inteligente


Desde então, depois de ter contato com essa imagem, comecei minha busca implacável. Passei meses (nem me lembro exatamente quantos) observando cada rosto masculino que cruzasse meu caminho, chegando mesmo a ser indiscreta. Eu estava determinada a encontrá-lo. Um rosto sério, sereno e inteligente!

Naquele tempo, pegar o ônibus no horário de pico se tornou uma aventura diária e prazerosa para mim. Cada rosto masculino que passasse pela catraca era minuciosamente investigado.  Uns eram sérios e serenos, outros sérios e inteligentes, mas nunca os três ao mesmo tempo.

Não menosprezando outras formas de beleza que, aliás, são muitas e inclassificáveis. Mas essa busca se transformou em uma verdadeira obsessão.

Um dia, caminhando pelos corredores da Universidade, finalmente o encontrei! Um rosto, uma fisionomia...era séria, serena e inteligente!
Sem muita coragem, desvendei as qualidades desse rosto para seu dono. Ele estranhou e achou graça, dizendo que sinceramente não se considerava nem um pouco sereno. Mas, afinal de contas, um rosto revela muito pouco de uma pessoa.
Hoje, meu amigo querido, de nome Ismael, habita terras Irlandesas. Espero que elas lhe tragam um pouco mais de serenidade...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Esta data tão querida

Eu sendo feliz

O que nos dizem no dia do nosso aniversário:
"Parabéns! Tudo de bom para você! E muitos anos de vida!"

O que deveriam nos dizer no dia do nosso aniversário:
"Meus pesames, você está 1 ano mais próximo da sua morte.Mas não se preocupe, isso acontece com todo o mundo uma vez por ano. Espero que você viva tempo suficiente para realizar tudo o que tem vontade. Mas olha, se eu fosse você, me apressava."

Engraçado, mas sempre penso no presente não como uma forma de parabenização, mas de consolo.

Hoje, as 10h54, eu nascia no Hospital São Luiz, no bairro de Jardim Paulista, em São Paulo.
Minha mãe disse que eu não chorei. Fiquei com os olhos esbugalhados olhando para as coisas em volta. Na certa eu estava com muita raiva por terem me tirado do meu conforto uterino e me colocado em que mundo bem esquisito, que eu tentava reconhecer.


E, para que esse post não fique muito lúgubre, digo a todos que se preocupam e que estejam ligados a mim: Hoje, aos 21, ainda não reconheço o mundo no qual me puseram. Mas, sabe, no fim das contas, acho que ele também não me reconhece. Por isso não me importo tanto assim.

=P

terça-feira, 22 de março de 2011

Something in the way


Me alimentei das palavras por você proferidas. Das horas que passaram incólumes por nossos desejos reprimidos. Seu perfil ardia contra o Sol que deslizava rápido em direção a linha que separava o céu do mar. E tão rápido o Sol se pôs que escureceu o nosso amor. Ainda posso te sentir nos átomos do universo ao meu redor e nas moléculas confusas que constituem o meu ser. Em cada vão, em cada esquina, em cada beco sem saída, eu esperava por ti...E te busquei noite adentro, nas dobras do meu corpo, no suor da minha pele, no cheiro da minha roupa que, mesmo lavando muito, ainda guarda algo de ti. Mas só encontrei um pedaço rasgado de você. A parte mais obscura e sem graça, que você esqueceu rabiscada nas entranhas do livro tombado na estante.

*

Sem pedir licença, mas com aviso antecipado, seu beijo doce - daquele doce enjoativo - desceu pela minha garganta da forma exata. Tão certeiro foi, que no momento planejado anulou em equilíbrio o gosto amargo da minha boca seca. A garoa lá de fora formada por gotas bem miúdas, parecia dançar contra o vento frio que soprava mansamente só para a gente, para completar nosso espetáculo. As gotas que se acumulavam no vidro da cafeteria, tão ingênuas e fascinantes, foram as únicas testemunhas curiosas que ousaram enfeitar nossa tarde derradeira.

*

 “Agora vá e não olhe para trás". Te levo no beijo sofrido e na imagem embaçada do olhar marejado. Porque você se move, me olha, se cala e me encara como nenhum outro. E eu, tão tonta de você, me entrego logo. Aquele gosto enjoativo me guiou até você no escuro. No abismo infinito em que você me prendeu, me sentiu, me despiu  e cuspiu sem gratidão.

*

 Mas agora corra, meu amor. É sua chance derradeira. Você está no caminho exato do meu coração. Falta pouco! Se aproxime mais e lhe estenderei as mãos, que gesticulam impacientes esperando seu contato.
 E foi assim, tão de repente, que você optou por ficar pelo caminho, parado na contramão.
Olhe a hora, agora é tarde. O tempo se esgotou. O Sol já se foi. Acaba de se pôr. Ele partiu rápido, sem dar explicação, e junto partiu sem volta o meu coração.

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Dedico este texto (que não tem nem a  metade da qualidade que eu gostaria) à @pollibud