sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quando anuncias a hora da partida



Era óbvio. Ele nunca a amaria. Gostava dela um bocado, é verdade. Podia sentir quando ele a beijava. Via seus olhos se revirarem de prazer. A boca cálida quase queimava quando os lábios tocavam o pescoço. Ela permanecia inerte. Era ele quem mandava. Amava-o tanto que não se importava. Mandava no seu corpo, nos seus sentimentos, nos seus pensamentos. Até sua alma pertencia à ele.

Mas é na hora da partida que o sentimento puro aflora e se revela para além das palavras.
É o momento em que o coração perde o compasso, o pulmão implora ofegante, os olhos umedecidos se fecham em derrota, a alma transtornada emudece e se apaga. E o corpo, imóvel, quase desfalece impotente.

Depois da partida, tudo vira silêncio...

Era sempre ele quem anunciava a partida, quem lembrava que era tarde. Era óbvio que seria ele quem a deixaria.

Mas esse era seu papel de homem. Ele era mais forte, mais cruel e egoísta. Ele era o homem e não amava. Ela era a mulher. Apenas uma mulher... Frágil e tosca, refém de si mesma. De forte, só o sentimento.

Quando se viu abandonada, apertou a mão com toda a força. Não era muita, mas se esforçou ao máximo, até sentir as unhas cravarem na pele macia da palma da mão. Parou quando sentiu o sangue escorrer. Queria ter a certeza de que o coração ainda batia...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Lágrimas e íons de ferro

Foto das rugas do meu pai


Naquela noite a lua era cheia e estava já bem alta. Uma brisa fresca soprava mansamente, aliviando o calor sufocante.

O dia tinha sido semelhante – para evitar a rispidez do igual – a todos os outros. Pelo menos, a todos os outros dos quais se lembrava com alguma nitidez e que podiam ser classificados como recentes.

A natural nostalgia do passado, somada com a morosidade da vida atual, fazia as lembranças tornarem-se ainda mais doloridas e a angústia uma constante.

A infância e a adolescência passaram com naturalidade. O que não significa que tenham sido menos intensas. Foram naturalmente prazerosas, ingênuas e, até certo ponto, inconseqüentes; mas a vida cria todas as condições para que assim sejam.

“Vontade de largar tudo. Largar tudo e sair correndo.”. Podia imaginar-se com nitidez atravessando a porta, descendo os degraus até o jardim, passaria correndo por entre as árvores, abriria o portão, que rangeria por conta dos anos e dos íons de ferro. Deixaria tudo para trás: jardim, árvores, portão e íons de ferro. A visão era tão nítida que podia quase sentir os pés descalços. Não. Não teria tempo sequer de calçar-se, pisando nos pedregulhos do jardim. E finalmente alcançaria a rua. Todos parariam observando a estranha figura, mas não se importaria e continuaria correndo. A partir daí não ambicionava mais nada. Talvez porque não fosse audaciosa ou corajosa o suficiente para sequer imaginar-se em fuga, quem dirá executá-la.

Era vítima da própria imaginação e o presente tosco podava-lhe as possibilidades, as pretensões, o destino. E os sentimentos iam confundindo-se, fundido-se, até se tornarem um frágil cordão de pequenas emoções previsíveis, que não queria dizer mais nada.

Nesse ponto a idéia da fuga já havia se tornado absolutamente impraticável, absurda. “Até a rua. Vejam só! Até a rua!”. Era só até onde sua imaginação podia chegar. Sentiu uma gota de suor escorrer pela nuca. O cabelo sempre preso, como ele gostava, aliviava o calor.

O portão rangeu. Passos pesados por causa das botinas subiram os degraus. Foi esperá-lo no alto da escada. Tentou abrir um sorriso – não com os lábios, mas com os olhos. Esperou o beijo. Ele passou rápido, apenas olhou de relance. Ainda pode ouvi-lo trancar-se no banheiro. Era óbvio que seu dia não tinha sido bom. E não era culpa dela. Não podia ser. Era culpa daquele calor infernal, que sufocava qualquer cristão. Nem pode notar a lágrima que se formava, começando a embaçar sua vista.

Mas não se abalou. Preferiu pensar na lágrima como o suor que brota dos olhos quando o calor alcança a alma.


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(Historinha meia-boca pensada para a frase do post anterior)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

pensamento de agora

E nesses dias tão absurdos,

em que o Sol parece ainda mais quente,

decido pensar na lágrima como o suor que brota dos olhos quando o calor alcança a alma.

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para encaixar em uma história que ainda vou escrever.

domingo, 18 de abril de 2010

Os ossos do ofício


Sua profissão era coveiro. Seu destino era cavar.

Nasceu do grito do parto, do seio chupou o leite. Sentiu o gosto amargo. Cuspiu, berrou e implorou ao ver aberta a chaga do mundo.

Aprendeu a realidade, decorou o nome das coisas, amou e sofreu pra tentar entender o quão difícil era nascer.

Sua profissão era coveiro. Seu destino era cavar.

Cada buraco que abria era, para ele, um novo parto. Uma nova vida. Bem abaixo de seus pés, a terra lúgubre implorava pelo orgânico que ainda fervia em cada corpo frio.

Um dia percebeu a morte. Sempre tão próxima e acolhedora. A vida era difícil. Tirava da morte o seu sustento.

Abriu um buraco no canto mais lindo. Ali, bem perto. Onde a terra é mais fértil. Cavou tanto e com vontade, que o cabo da enxada abriu-lhe dois furos na mão.

Entregou-se ao buraco escuro. Fechou os olhos pesados e riu a alegria infinita de ter o corpo descansado. Repousou as mãos sobre o peito. Agora sim. Não sentia mais a vida.

E assim ficou deitado, esperando jazer eternamente. Sem benção e sem lápide , no reinado que era seu.

Sua profissão era coveiro. Seu destino era cavar.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pensamento de ônibus. De ônibus...

Desenho por Helena Maziviero, a menina de 12 anos hoje, em auto-retrato



Na eternidade
eu queria ter
Tantos anos-luz
quanto fosse precisar
Para cruzar o túnel

Do tempo do seu olhar

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