quarta-feira, 9 de março de 2011

Título: Várias horas no Paint para fazer esse desenho tosco. (Bits sobre tela)








Sabe, o problema de crescer...


é que a gente vai ficando cada vez mais sintético.

sábado, 5 de março de 2011

Colombina, Colombina, meu amor

          Pierro, Arlequim e Colombina
            de Di Cavalcanti

No dia em que o Arlequim se apaixonou pela Colombina
Ele implorou cantando, serviu a moça e deu seu mundo
Ela fez pouco caso, riu sem jeito e esbanjou charme
O Pierrot chegou meio tímido, com flores murchas e um anel sem graça
Vestia trapos de palhaço, escondendo o rosto humilhado, enquanto todos lhe diziam "és um desgraçado"
A Colombina orgulhosa, uma dama respeitada,
Recebeu o mundo, aceitou as flores e vestiu o anel.
Foi quando Pantaleão, mercador galante e esnobe
Levou a Colombina
Na carruagem mais nobre
O Arlequim e o Pierrot, no carnaval da vida sofrida
suspiraram e cantaram

"Colombina, sua puta!"
  
  

sexta-feira, 4 de março de 2011

Transporte público em Natal: quem conhece, desconfia

Empresas de ônibus da cidade obrigam usuários a viajar em veículos antigos, que quebram constantemente
Por Helena Maziviero para Agência Fotec
 
Ônibus antigos que quebram constantemente fazem parte da rotina dos passageiros de Natal (Foto: Helena Maziviero/Fotec)Ônibus antigos que quebram constantemente fazem parte da rotina dos passageiros de Natal (Foto: Helena Maziviero/Fotec)


Próximo ao horário do almoço, por volta das 11h30, Carlos Cunha, um aposentado de 67 anos, espera o ônibus na Avenida Salgado Filho, uma das principais vias da cidade. “Aqui deveriam passar mais ônibus. Já faz tempo que não passa nenhum”, reclama. Ele vai para a Zona Sul, em uma região de divisa, desprovida de responsabilidade administrativa e onde as cidades de Natal e Parnamirim brigam para resolver de quem é o filho resultante do crescimento urbano não planejado.
Dois ônibus se aproximam. Carlos inclina o corpo para frente e dá o sinal de parada. O primeiro ônibus estaciona e abre as portas esperando o embarque. Carlos faz que não com o dedo e explica que o veículo certo é o que está atrás. Mas já é tarde. O transporte tão esperado havia passado rápido pela esquerda, sem se preocupar com o senhor que o aguardava. “Que absurdo!”, reclama o passageiro ignorado.
Carlos segura firme uma pasta de couro entre os braços e já está bastante impaciente, vociferando contra o transporte público da cidade. Senta-se novamente no banco e faz a única coisa que lhe resta: esperar.
Muitos ônibus mais tarde, o Nova Parnamirim - via Maria Lacerda finalmente aponta no horizonte. Em um sobressalto, Carlos estica o braço e quase implora a parada do veículo. Dessa vez ele obtém sucesso. Exibe a carteira de identidade que garante a gratuidade em transportes públicos e entra pela porta traseira. Antes que Carlos tenha tempo de se acomodar em um dos bancos, o ônibus arranca e segue viagem.
Já na BR 101, o veículo está lotado principalmente por estudantes, que preenchem os poucos espaços vazios do coletivo com bolsas, livros e cadernos, obstruindo ainda mais o caminho de quem ousa se locomover. Mesmo assim, o ônibus segue inabalável seu trajeto, até o momento em que um ruído incomum, vindo das engrenagens do veículo, une-se ao ronco costumeiro do motor e faz com que o ônibus comece a perder velocidade, até parar no acostamento da rodovia.
O motorista desce para verificar. Os passageiros aguardam ansiosos, esticando o pescoço para enxergar o que se passa. Com expressão de desapontamento, o condutor do veículo anuncia a sentença: “Terão de trocar de carro. Esse quebrou.”. Depois do murmúrio geral de insatisfação, os passageiros se aglomeram no ponto de ônibus mais próximo. Carlos está lá, segurando sua pasta de couro e dividindo sua insatisfação com qualquer pessoa que esteja a sua volta. “Esses ônibus são todos velhos, vivem quebrando. Não tem sequer um que preste”, reclama.
O transporte público de Natal, que, na verdade, se resume às linhas de ônibus, estava demonstrando o quão ineficiente e precário é o sistema do qual dependem diariamente milhares de pessoas.
Motoristas mal educados, horário irregular, atrasos, passagens elevadas e frota antiga, muitas vezes sem acesso para deficientes, são elementos que fazem parte do cotidiano de quem utiliza o transporte público da cidade. Mas, naquele momento, o descontentamento geral se percebeu quando um ônibus recém-chegado teve de enfrentar a fúria dos passageiros que embarcavam rápido pela porta traseira. O motorista anuncia que não pode, já que o veículo quebrado pertencia a uma empresa diferente. “Vocês devem esperar um ônibus que seja da mesma empresa”, informa o condutor. Tarde demais. Do meio da multidão alguém grita: “Depois que eu subir, quero ver quem me tira!”. De dentro do ônibus o cobrador reclama, dizendo que a demora no embarque está atrasando o horário do veículo. O cobrador comenta que, na verdade, ele e o motorista estão fazendo um favor aos passageiros do ônibus quebrado. “Não é nossa obrigação”, anuncia convicto.
Em total desconforto, todos finalmente embarcam e seguem viagem. Inclusive Carlos, que viajou em pé segurando a pasta de couro. No desembarque, o aposentado se atrapalha, aguardando em frente a uma porta dedicada aos deficientes e que tinha a inscrição “Desembarque pela porta trazeira”. Assim mesmo, com “z”.

A superlotação e as passagens caras são alguns dos problemas do transporte público de Natal (Foto: Helena Maziviero/Fotec)
A superlotação e as passagens caras são alguns dos problemas do transporte público de Natal (Foto: Helena Maziviero/Fotec)


[Relato do repórter] A pauta mora ao lado
Eu estava sem pauta, sentada em um ponto de ônibus no meio da Avenida Salgado Filho. Minha intenção inicial, de falar sobre o abandono do teatro municipal Sandoval Wanderley, não rendeu matéria. A professora me disse que uma outra aluna, no semestre passado, já havia feito uma reportagem com esse tema. Era verdade. Conferi no site da Fotec a ótima matéria escrita por Diana Coelho.
Eu queria algo diferente. Um assunto que não estivesse lá, só esperando para ser explorado. Queria descobrir alguma coisa nova, algum personagem representativo e aparentemente pequeno diante da imensidão dos assuntos que normalmente preenchem os veículos jornalísticos.
Lembrei de um senhor muito idoso que, mesmo aposentado, teimava em servir de guia turístico e cuidar do teatro Alberto Maranhão. Liguei para a bilheteria perguntando pelo seu Pedro, como é carinhosamente chamado. A moça do outro lado da linha me informou que ele não trabalha mais lá, que foi substituído por outra funcionária. Desligo o telefone desapontada. Eu até poderia fazer um trabalho investigativo, descobrir onde mora o seu Pedro e ir até sua casa, mas definitivamente não seria a mesma coisa. Minha idéia era a de que ele me guiasse pelo teatro, contando as famosas histórias de assombrações de atores mortos que vagam pelo prédio centenário.
Em meio à minha angustiante falta de criatividade por não conseguir pensar em sequer um assunto interessante para um trabalho de faculdade, eis que quase não reparo em um senhor um tanto caricato, sentado ao meu lado no ponto de ônibus.
Ele veste uma camiseta listrada de gola e usa os poucos cabelos brancos que lhe restam muito bem penteados. Seu nome é Carlos Cunha e está reclamando dos ônibus de Natal, da falta de respeito dos motoristas e do preço da passagem. Começamos a conversar e descubro que temos o mesmo destino. Espero o ônibus junto com ele. No fim das contas, a companhia de Carlos e a viagem me renderiam uma boa pauta. Chegando em casa, escrevi a matéria. (Helena Maziviero)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

 Não. Não sou eu de cabelo curto. Esse é meu irmão.


Quando sentir a vontade de fazer algo, faça como meu irmão: sente e espere até a vontade  passar.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Paulicéia desvairada

Flickr
Saí de agasalho, touca, calça jeans, meias longas e all star vermelho. Quase esqueci o guarda-chuva xadrez. Mas meu pai, de roupão e chinelas, enfrentou o orvalho congelado na grama para poder entregá-lo a mim.
Já eram  quase 7h, mas a manhã não tinha vindo. Ainda era madrugada. As luzes dos postes estavam acesas, mas não iluminavam muita coisa.
Desci a ladeira de casa sem poder ver mais do que vultos que estivessem a mais de três metros de distância. A neblina era tão densa que as vezes eu riscava o ar com os dedos para ver se conseguia cortá-la.
Sabe aquele vaporzinho que sai da boca porque dizem que nosso corpo está quente por dentro, aí a água que está no ar condensa quando a gente bafora?? É mentira. Sempre acreditei que aquilo era a fumaça da fogueira que meu estômago acendia porque estava com frio. Foi a Teresa - ou minha mãe preta, como ela gostava de dizer - quem me contou esse segredo. Eu era uma boba. Tinha sete anos e ainda acreditava na felicidade. Não acedito mais na felicidade, mas creio em fogueiras feitas pelo estômago.


Velha Paulista de guerra.


Enfim, são lembranças que eu tenho de São Paulo.
É a minha terra.
Engraçado, mas nunca consigo me inspirar pra falar dela.
Hoje descobri o porquê. Ela não me ama. Ela não ama ninguém. É uma velha rabugenta que cospe diariamente mais de onze milhões de pessoas nas ruas e as obriga a trabalhar, estudar, vagabundear ou pedir esmolas. Sem se importar com seus agasalhos ou meias longas de lã.
Na época, esse amor não correspondido me comovia muito. Me fazia sentir raiva. Eu me doava tanto...Caminhava pelas ruas mais obscuras, aguentava firme o cheiro de merda que brotava do Tietê, percorria estações em metrôs e trens lotados, via crianças cheirando cola e pedindo esmola...
Mas aguentei firme!
Eu me doei àquela cidade. Me ofereci como uma vagabunda. Daquelas que sobem e descem pela Augusta a procura de um "bacana".
Mas ela sempre me disse não. Me decepcionou, me cuspiu, me rasgou e vomitou.
E então eu desisti. Virei-lhe as costas. Sua puta mal agradecida!

Hoje, três anos longe dela, comecei a compreender. Ela é linda, mas detesta ser admirada. Como aquelas mulheres que encantam, te fazem rastejar por elas, comprar as jóias mais caras e ir a falência. Ela é linda, mas detesta ser amada. Mostra sempre sua pior face. Não corre o risco de ser só "mais uma".