sexta-feira, 14 de outubro de 2011

And in the end...

Foto que achei na câmera aqui de casa. Não sei quem tirou....e não me dei ao trabalho de perguntar. hahaha

Um pouco mais triste, a vida continua.
A vida continua um pouco mais triste.
A vida triste continua um pouco mais.
Triste, a vida continua mais um pouco


.Enfim.

domingo, 9 de outubro de 2011

A 5ª Sinfonia ou o Caos Eterno



Ele já havia lhe advertido várias vezes: "Não saia à rua sem mim". Ela sempre acatava, sem hesitar ou questionar o que aquele homem - o seu homem - lhe ordenava. Sim. Eram ordens, porque ele  mesmo sempre acrescentava ao fim de cada frase imperativa: "Isso é uma ordem". E mesmo reclusa, dentro das paredes confortáveis do casarão enorme, os rumores de que ela era submissa demais para aqueles tempos chegavam aos seus ouvidos. Não se importava. Falassem o que bem entendessem. Ela sabia que tudo aquilo, aquele bigode recatado, aquelas botinas pesadas, aquela voz grave e impetuosa, eram artifícios para um bom convívio e que, sim, era pautado no amor porque era proteção.
Mas desde aquela noite já não conseguia dormir. A ideia da fuga, a ousadia da rua, dos olhares curiosos... Tudo lhe perturbava a ponto de tirar-lhe o fôlego. Sempre que a fuga surgia em sua mente quase infértil, um frio agudo subia-lhe pela espinha, eriçando ousadamente cada pelo de seu corpo. "É só uma rua." Não precisava fugir. Desaparecer para nunca mais voltar. Era só....a rua.

Estava ensopada de suor. A camisola branca de linho chegou a adquirir uma tonalidade amarelada. Ainda permanecia na cama; imóvel. Uma sensação de desconforto extremo a impedia de executar qualquer movimento, mínimo que fosse. Já era tarde. Podia perceber pela claridade excessiva que invadia as enormes vidraças do quarto e que a impediam de abrir completamente os olhos. Nem mesmo as grossas cortinas de veludo davam conta de impedir o assédio da luz. "Céus! É hora! Logo ele voltará para o almoço e nem mesmo falei com as criadas! As criadas....por que não me acordaram? Por que não chamaram?".
A casa silenciava como nunca. Precisava romper a densidade estática do ambiente que já chegava a sufocá-la. Levou uma das mãos até a nuca e sentiu os fios de cabelo ensopados pelo suor. Sentou-se de uma só vez. Precisou esforçar-se para se livrar do peso enorme das cobertas lançadas ao pé da cama. Os pés tocaram o chão de madeira impecavelmente polida e que estranhamente estava gelada. Insuportavelmente gelada. Agora, sem as cobertas, podia sentir o frio adentrar cada poro do seu corpo e quase congelar sua pele. Ainda assim havia suado como nunca durante a noite. Como se uma enorme revolução térmica tivesse ocorrido assim, no pequeno espaço das horas que determinam o período da noite.

Estava imersa em devaneios sonolentos quando ouviu a primeira nota. Abriu completamente os olhos e esperou ofegante. Então veio o primeiro acorde. Grave, um arpejo de violoncelo ressoou pelo corredor e adentrou a madeira maciça das portas do quarto. Lá dentro, ela aguardava estática. Num ímpeto, totalmente incrédula, correu até a porta, escancarando suas duas folhas. Mal terminou de abri-las e a música, numa intensidade crescente e quase sinestésica, soou melódica e harmonicamente impecável. Projetou seu corpo para o corredor quase que instintivamente, olhou ao redor, procurou nos quartos vizinhos. Nada. Apenas um som de frequência muito baixa, rompendo as barreiras do casarão e se instalando em cada cômodo insolentemente. A casa estava vazia. Chamou pelas criadas, que não apareceram. Desceu cambaleante a escada que levava até o salão principal e permaneceu estática, bem abaixo do imenso lustre de cristal que decorava o ambiente. Seu coração pareceu deslocar-se da cavidade torácica quando de súbito pode ouvir claramente não apenas um, mas vários cellos. O mesmo timbre, a mesma intensidade e ritmo, executando magistralmente o primeiro dos suítes de Bach! O casarão estremecia a cada nota... "Não é verdade! Só pode ser um sonho!". Soltou um grito desesperado implorando que parassem. Não surtiu efeito. Subiu os degraus para seu quarto tão velozmente que se não fosse o auxílio do corrimão, teria despencado escada abaixo. Trancou a porta com três voltas de chave e se embrulhou nos cobertores ainda úmidos de suor. Finalmente a música chegava ao fim, diminuindo gradualmente, até extinguir qualquer som que não fizesse parte do cotidiano melancólico do enorme casarão. "Céus! Até que enfim...". Suspirou de alívio. Não sentia mais calor, nem frio. Apenas o coração palpitando em um ritmo alucinante. O mesmo sentimento....a mesmo vontade....a ideia da fuga. O fôlego faltou-lhe, o frio subiu rápido pela espinha e os pelos se eriçaram. Era hora. Vestiu o primeiro casaco que avistou e com três voltas na chave destrancou a porta. Desceu a escadaria. Dessa vez com altivez e segurança, sem hesitar nem um passo. Com as mãos descobertas sentiu o metal gelado da maçaneta da porta de entrada enfeitada com dois vitrais floridos.

Atravessou a porta, desceu os degraus até o jardim, passou correndo por entre as árvores, abriu o portão, que rangeu por conta dos anos e dos íons de ferro. Deixou tudo para trás: Bach, jardim, árvores, portão e íons de ferro.Não teve tempo sequer de calçar-se, pisando nos pedregulhos do jardim. E finalmente alcançou a rua. Todos pararam observando a estranha figura, mas não se importou e continuou correndo.


Agora podia ouvir claramente a melodia profunda e poética do piano. Era a Valsa Minuto de Chopin! Seu fôlego se recompunha a cada contraponto frenético da batida cromática de seu coração. 






terça-feira, 19 de julho de 2011

Feito criança

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E me pergunto: Pra que tudo isso? As coisas são tão simples, os fatos são tão óbvios. Esse cheiro de mundo, essa visão teatral, esse gosto...Meu Deus, quanta bobagem! Não faz sentido. Não faz o mínimo de sentido. Esse choro sem razão. Sem razão aparente...porque lá no fundo há uma razão. Tão escondida e profunda nas minhas entranhas. Mas está lá. Só um consolo...um consolo, um carinho, sem pretensão nem explicação. Andando, andando...continue andando. Calma. Já está quase correndo. Andando!! Devagar. Muita água empoçada. Esses ladrilhos desalinhados e essa merda de sapato! É capaz de eu parar de pensar e ainda continuar andando. Essa pressão na cabeça, esses mesmos pensamentos. Ele me ama. É fato. Não tem a mínima noção do quanto eu preciso dele, mas me ama...Enfim, já são três meses. Três meses?E...cinco dias? Cinco dias? Isso, isso. Ah, não. Caminhão. Por favor, passa devagar! Diminui, porra! Diminui! Caralho, essa água nojenta! Lavei a calça ontem. Quase não seca no varal com esse tempo. Esse tempo. Eu gosto. Gostaria mais se pudesse ficar em casa com ele. Calma. Vai devagar, senão acontece que nem da última vez. Ah! Essa estátua, monumento, sei lá, na entrada. É horrível! Não remete a nada. E o colocam aqui. Bem na entrada, para que todos olhem e comentem. A arte pra mim tem que sensibilizar. Não importa se é feia, bonita, chocante, alegre, triste...tem que tocar as pessoas. Fazê-las sentir. E esse negócio horrendo logo na recepção! Puta merda! Passo o dia olhando pra isso. Aliás, quem fez isso? Deve ter sido o filho do dono, ou a mulher dele. Só pode. Chorei feito uma criança ontem a noite. Por quê? Não sei....só ando triste. De repente tudo ficou meio triste. Parece que está impregnado no ar.  E esse caralho de escultura!!! Devia ter esperado o outro ônibus hoje. Parava mais perto. Mas cheguei. Deixa ver...dez minutos atrasada. Está bom. Para os meus parâmetros, ótimo. Essa tristeza, essa tristeza. Parece que vai me explodir o peito. Café. Sempre ajuda. Lá vem ele...vai falar do relatório."

- Bom dia, meu bem! Como está? Preciso que separe a papelada pra eu fechar o relatório hoje, tá?Qualquer coisa, vou estar na minha sala.
- Sim,sim...sem problemas. Já levo.

"Chorei feito criança.Essa tristeza, essa tristeza."

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fuga

Tinha aprendido, sem que a houvessem ensinado, que a emoção é o pensamento que escapa da gente quando estamos distraídos. Ele foge para virar lágrima ou sorriso. Por isso, quando lhe perguntavam o motivo do choro, ela só respondia: Não sei. Acho que meu pensamento fugiu”.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O pecado...

Foto: Marlena Szasz
          
O pecado mora lá dentro

Já passava da meia-noite de sábado, mas o local ainda estava deserto. Era um bar, apesar de não haver nenhum indicativo da real finalidade daquele estabelecimento. Enormes enfeites em forma de balões juninos chamavam a atenção para aquele lugar que se escondia por trás de dois muros altos. As casas residenciais vizinhas tinham um aspecto sonolento e pareciam não se importar com a música alta que se ouvia de longe. O Vero’s Bar, no bairro da Candelária, é conhecido apenas por aqueles que o frequentam. Ele não está nos guias turísticos ou culturais da cidade. Nem mesmo pesquisas na internet são capazes de detectar o lugar. Para conseguir chegar, só mesmo através de indicações. 


Uma porta estreita, a única entrada do estabelecimento, era guardada por um homem agasalhado que vistoriava a entrada e saída dos clientes. “Pra homem é dez. Mulher entra de graça.”, informa o bilheteiro segurando um copo de pinga.  Do outro lado da rua, uma barraca de lanches atrai uma porção de homens que conversam rodeados pelas latas de cervejas vazias.

A garoa fria que começara a cair no começo da noite ainda não dava sinais de trégua. Abrigada debaixo de um guarda-chuva preto, uma mulher trajando shorts minúsculos e muito apertados dobra a esquina. Equilibrando-se sobre saltos enormes, ela cumprimenta o bilheteiro e entra rápido no local.

Lá dentro a decoração é formada por bandeirinhas e balões juninos espalhados por todo o bar. Tecidos floridos recobrem as paredes, que por vezes revelam o cimento chapiscado a espera da pintura.  Os poucos clientes escondem-se debaixo da cobertura em busca de mesas secas. Sentadas sobre as mesas, várias mulheres conversam exibindo suas coxas grossas e bundas enormes.  Quando a clientela começa a chegar elas percorrem o bar dançando sensualmente para qualquer homem que lhes dirija um olhar mais interessado. 

Os dois únicos garçons do lugar vestem camisas brancas e perambulam pelo bar chamando a atenção dos clientes mais atiçados. As mulheres se debruçam nas mesas ocupadas e pedem que os homens lhe paguem cerveja. R$ 4,50 a latinha de Skol. Um absurdo! Mas vale tudo para aqueles que estão decididos a “ganhar a noite”. As garotas fazem charme, dançam, abraçam e até beijam aqueles dispostos a abrir a carteira e despender os sete reais da caipirinha.

Um dos clientes pergunta se não haverá pole dance. “Não. Hoje não. Sem condições”, informa o garçom apontando para a barra de metal afixada em um palco improvisado ensopado pela chuva.  A noite não prometia muito. Os homens bebiam solitários, esnobando o que as mulheres tinham a oferecer. A clientela parecia mais entretida com a luta de boxe que passava na pequena televisão afixada no fundo do bar.

Foto: Miss Fluff

Quando quatro homens chegam e ocupam uma das mesas, vários pares de coxas muito grossas se aglomeram em torno do grupo. A veterana da casa chega acompanhada de mais três mulheres, abre espaço e senta com os recém-chegados. Ela é corpulenta e cheia de tatuagens. Começa a puxar conversa e pede que paguem as cervejas. “Traz quatro”, grita para o garçom. 

Um dos homens do grupo, vestindo a camisa do Inter de Milão, se interessa pela mais velha. Paga tudo o que ela pede e a beija várias vezes. Conversam por cerca de uma hora, até que ela desiste.  Há um limite de tempo. Se o homem não levar logo pro quarto nos fundos do bar, é melhor cair fora e passar pra outro.  A veterana se levanta cambaleante e se debruça sobre a mesa ao lado, onde um casal de amigos conversa. “Me dá licença, tá, meu bem? Vocês estão muito quietinhos. Vamos conversar. Me paga uma cerveja?”, pergunta quase intimando o homem. Ele responde rápido que sim.  Já sentada, ela traga o cigarro que leva entre os dedos e dirige-se sorridente à amiga do rapaz.  “Você não se importa, né, meu bem? Porque eu não quero arrumar um barraco aqui hoje”. A moça consente e como recompensa recebe um "xero" de presente. As duas riem.

No Vero’s você tem que conquistar. Precisa ter lábia, conversar ao pé do ouvido, oferecer o cigarro, pagar as bebidas – as mais caras, de preferência - e chamar para dançar forró agarradinho. Se o homem deixar sentar no colo é porque a noite está ganha. Começam as caricias mais atrevidas, os beijos mais ousados e, quando se percebe, os dois já caminham em direção ao quarto.

Lá pelas três da manhã as mulheres que sobraram perdem toda a timidez. Elas tiram os casacos e exibem seus sutiãs enfeitados com laços e lantejoulas brilhantes. Não fazem mais questão de conversa e não se incomodam quando algum homem apalpa seus corpos quase nus que dançam incansavelmente ao som do forró.

Mas nem todos vão atrás das mulheres. Muitos querem só encher a cara e curtir o ambiente. Cliente mulher quase não aparece. “Mulher desacompanhada ou é puta ou é sapatão”, é o que se ouve entre os frequentadores do Vero’s. Uma das raras clientes admite que sempre procura ir em grupo para “não ser confundida com as outras mulheres da casa”.  Ou, pelo menos, é preciso estar acompanhada de um amigo “com cara de mau”.

Dependendo do movimento, o expediente termina lá pelas cinco da manhã. É quando as últimas mulheres já vestiram seus casacos e se cansaram da dança. Algumas ainda fumam seus cigarros e pedem para que os poucos clientes restantes lhe paguem a saideira. Não há mais expectativas de ganhar a noite, que chegou ao fim. As casas vizinhas ao bar estão acordando, então é hora de dormir.